sábado, 27 de março de 2010

EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE CULTURAL: REFLETINDO SOBRE AS DIFERENTES PRESENÇAS NA ESCOLA

“Não estou tentando dividir. Ao contrário, a luta contra o
racismo é uma forma de unir as pessoas. O racismo não é
um problema dos negros, o racismo afeta toda a nossa
sociedade. A luta contra o racismo não é uma luta contra
os brancos. É uma luta para a construção de uma
sociedade onde várias culturas possam viver em
harmonia.”
Benedita da Silva


Nilma Lino Gomes
Prof.a do Departamento de Administração
Escolar da Faculdade de Educação/UFMG
Resumo: A reflexão sobre educação e diversidade cultural não diz respeito apenas ao reconhecimento do outro como diferente. Significa pensar a relação entre o eu e o outro. A escola é um espaço sociocultural em que as diferentes presenças se encontram. Mas será que essas diferenças têm sido respeitadas? Será que a garantia da educação escolar como um direito social possibilita a inclusão de todo tipo de diferença dentro desse espaço? Nós, educadores e educadoras, não podemos ficar alheios/as a essas questões. Por isso, a reflexão sobre as diferentes presenças na escola e na sociedade brasileira e a capacidade de compreender e se posicionar diante de um mundo em constante transformação política, econômica e sociocultural devem fazer parte da formação e da prática de todos/as os/as educadores/as.
Educação - diversidade cultural – escola
1 - O impacto do diferente. No momento em que escrevo esse artigo, contabilizo quantas vezes fui abordada desde a semana passada por amigos, familiares e curiosos sobre uma matéria da revista Veja a respeito dos negros de classe média. Algumas pessoas ficaram satisfeitas pela visibilidade dada à população negra, outras pela construção de uma imagem positiva do negro e houve até aquelas que afirmaram que a matéria veio confirmar o fato de que, no Brasil, não existe racismo.
Diante de tão diferentes e veementes afirmações comecei a refletir a respeito das representações sobre o negro subjacentes às diversas interpretações partilhadas por essas pessoas tão ciosas em relação às diferenças e, mais precisamente, à diferença racial. Sem querer entrar no mérito de cada julgamento, achei muito interessante as diferentes reações e interpretações das pessoas sobre a matéria. Tal fato demonstra o quanto a questão racial na sociedade brasileira ainda consegue incomodar um grande número de pessoas, levando-as a opinarem sobre as diferenças. Demonstra também o quanto o tema das diferentes presenças na sociedade brasileira e, dentre estas, a do segmento negro, ainda consegue mexer com a nossa tão propalada identidade nacional. Será que isso prova que o Brasil é um país em que as diferenças são respeitadas e aceitas? Será que o fato de apregoarmos que a constituição do povo brasileiro é marcada pela miscigenação, pela pluralidade e pela diversidade cultural faz do nosso país uma nação inclusiva?
Penso que se realmente fôssemos uma sociedade inclusiva, a mídia não precisaria enfatizar como algo inédito a suposta ascensão de um determinado segmento étnico-racial à classe média. Ao destacar a possibilidade de melhoria de vida de uma pequena fração dentro da população negra não podemos deixar de considerar os fatores que relegaram esse grupo (e outros) a ocupar, historicamente, os lugares mais baixos na escala social. E ainda, não podemos esquecer de que uma grande massa da população negra continua fazendo parte do injusto processo de exclusão social.
Em suma, a discussão em torno da reportagem da revista Veja pode ser um exemplo de como a sociedade brasileira se relaciona com as diferenças sociais e étnicas. Estas representam um dos aspectos da diversidade cultural presente em nosso país. Porém, a diversidade cultural é muito mais complexa e multifacetada do que pensamos. Significa muito mais do que a apologia ao aspecto pluriétnico e pluricultural da nossa sociedade. Pela sua própria heterogeneidade, a diversidade cultural exige de nós um posicionamento crítico e político e um olhar mais ampliado que consiga abarcar os múltiplos recortes dentro de uma realidade culturalmente diversa.
O reconhecimento dos diversos recortes dentro da ampla temática da diversidade cultural (negros, índios, mulheres, portadores de necessidades especiais, homossexuais, entre outros) coloca-nos frente a frente com a luta desses e outros grupos em prol do respeito à diferença. Coloca-nos, também, diante do desafio de implementar políticas públicas em que a história e a diferença de cada grupo social e cultural sejam respeitadas dentro das suas especificidades sem perder o rumo do diálogo, da troca de experiências e da garantia dos direitos sociais. A luta pelo direito e pelo reconhecimento das diferenças não pode se dar de forma separada e isolada e nem resultar em práticas culturais, políticas e pedagógicas solitárias e excludentes. Ao considerarmos as especificidades que compõem a diversidade cultural e os caminhos que precisam ser trilhados para a construção do diálogo e para a garantia da cidadania à todos, independentemente das diferenças, não podemos esquecer de uma instituição muito importante em nossa sociedade: a escola.
A escola cumpre a sua função social e política não somente na escolha da metodologia eficaz para a transmissão dos conhecimentos historicamente acumulados ou no preparo das novas gerações para serem inseridas no mercado de trabalho e/ou serem aprovadas no vestibular. Quando a escola conseguir superar essa visão, ela compreenderá que a racionalidade científica é importante para os processos formativos e informativos, porém, ela não modifica por si só o imaginário e as representações coletivas negativas que se construíram sobre os ditos "diferentes" em nossa sociedade. Nesse sentido, a educação escolar, embora não possa resolver sozinha todas essas questões, ocupa um lugar de destaque (MUNANGA, 1999). Se concordamos e até mesmo nos orgulhamos do aspecto pluricultural da sociedade brasileira, o nosso projeto de democracia não pode se eximir da responsabilidade de criar, de fato, condições em que a diversidade do nosso povo seja respeitada. A escola é um espaço sociocultural em que as diferentes presenças se encontram. Mas será que essas diferenças são tratadas de maneira adequada? Será que a garantia da educação escolar como um direito social possibilita a inclusão de todos os tipos de diferenças dentro desse espaço? Por isso, a reflexão sobre as diferentes presenças na escola e na sociedade brasileira deve fazer parte da formação e da prática de todos/as os/as educadores/as.
Mas o que é a diversidade? Ao consultarmos o dicionário à procura da definição da palavra DIVERSIDADE vamos encontrar diferença, dessemelhança. Isso pode nos levar a pensar que a diversidade diz respeito somente aos sinais que podem ser vistos a olho nu. Porém, se ampliarmos a nossa visão sobre as diferenças e dermos a elas um trato cultural e político poderemos entendê-las de duas formas: 1) as diferenças podem ser empiricamente observáveis. 2) as diferenças também são construídas ao longo do processo histórico, nas relações sociais e nas relações de poder. Muitas vezes, os grupos humanos tornam o outro diferente para fazê-lo inimigo, para dominá-lo.
Por isso, falar sobre a diversidade cultural não diz respeito apenas ao reconhecimento do outro. Significa pensar a relação entre o eu e o outro. Aí está o encantamento da discussão sobre a diversidade. Ao considerarmos o outro, o diferente, não deixamos de focar a atenção sobre o nosso grupo, a nossa história, o nosso povo. Ou seja, falamos o tempo inteiro em semelhanças e diferenças.
Isso nos leva a pensar que ao considerarmos alguém ou alguma coisa diferente, estamos sempre partindo de uma comparação. E não é qualquer comparação. Geralmente, comparamos esse outro com algum tipo de padrão ou de norma vigente no nosso grupo cultural ou que esteja próximo da nossa visão de mundo. Esse padrão pode ser de comportamento, de inteligência, de esperteza, de beleza, de cultura, de linguagem, de classe social, de raça, de gênero, de idade....
Nesse sentido, a discussão a respeito da diversidade cultural não pode ficar restrita à análise de um determinado comportamento ou de uma resposta individual. Ela precisa incluir e abranger uma discussão política. Por que? Por que ela diz respeito às relações estabelecidas entre os grupos humanos e por isso mesmo não está fora das relações de poder. Ela diz respeito aos padrões e aos valores que regulam essas relações.
Fonte:
http://www.mulheresnegras.org

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